ESPELHO
Hoje atravessei o espelho
E pela imensa rede que liga
Todos os espelhos do mundo
Fui ao do seu quarto
Pude admirar-te enquanto dormias
E ao acordar e espreguiçar
Olhaste para mim
Fiz de suas, as minhas mãos
Acariciava seus
cabelos
Enquanto escovava-os pela manhã
Beijei seus lábios
Ao sentir o batom contorneando sua boca
Deslumbrei seu corpo
nu
Antes de assentar suas vestes
Mas o desprezo da sua alma a minha
Manifestava-se ali
Não me vias
Não me sentias
Desesperado e angustiado
Tentei sair dali
Tentei fugir
Vi-me preso
Dentro do vidro espelhado
Mas poderia ser em pensamentos emaranhados
Ou sonhos confusos
Já não sei mais se estou preso no sonho ou no espelho
Reflete no espelho o medo de perder
Nem te tenho e nem te perco
Ao olhar no espelho finjo que te toco
Ao sonhar esqueço que não posso
E ao pular para fora do espelho
Ele quebra
E em mil pedaços de
lembranças
Espedaçadas pelo chão do quarto
Meu amor fica
kundalini
Sinto a impermanência das coisas e seres
E a ilusão dos fatos
A impressão dos atos
Marcados na pele como cicatrizes
E na alma como tinta que não sai
Do branco papel
Mas o que é ilusão
Senão duas faces
De uma mesma verdade
Da verdade dita por ti
E enxergada por mim
Verdade cega
Que não vê a mentira verdadeira
Fruto da união do será com o talvez
O que esperar então dessa força sincera
Da conjunção carnal e espiritual
De mentes e corpos
Que sobe pela espinha
E termina em um fluxo de orgasmo
Que não sai
Que fica e que alimenta
O que é e o que não será
Esquecido pelo que já foi
Distraído em soluções
Para problemas inexistentes
De dúvidas certas
Em horas erradas
Continuo o caminho torto
Entre a escuridão e a luz
Mantendo a mente reta
E o coração tranquilo
Sereno a turbulência
Com a paz inexistente
Dos meus conflitos internos
LIVRO
Prefiro não enumerar as páginas
De minha existência
Melhor escrever a esmo pelo fim ou começo
Acrescentando lembranças
Arrancando dores
Ilustro folhas com fotos
Tiradas com minha mente
Acrescento um pouco de poesia
Aonde não há nada para rir
Rabisco e rasuro
O que quero esquecer
Não me importa o que foi
O que é
Ou o que será
Tudo são fatos mergulhados na memória
Dizem-me o que sou
E se te conheci ontem ou sempre
Tanto faz
O que importa
É que em todas as páginas você está
MONTANHA
Hoje sou montanha
Na quietude inabalável de meu ser
Permaneço
Por mais que existam mil vulcões
Dentro de mim
Palavras não entrarão em erupção
Saindo pela minha boca
O tremor de minhas pernas
Será passageiro
Manterei o monte firme e forte
E em silêncio permanecerei
Esperarei sozinho, o sol se por
A lua surgir
Dormirei sob o céu estrelado
Para quem sabe amanhã
Ao cair o primeiro orvalho
Acordar trovão
Preferia ser vento
A essa monotonia
Essa coisa fria
Desejo ser puro movimento
Gostaria de ser como as águas de um rio
E levar tudo embora
Com a força da correnteza das cachoeiras
E na calmaria das águas paradas
Dar-te de beber e matar a tua sede
Poderia ser fogo
Com labaredas altas
Todo mal consumir
E com o calor de suas brasas
Aquecer seu corpo em noites de inverno
Mas hoje não
Hoje sou montanha
Na estranha quietude
Da observação
Aceito e contemplo
Espero e durmo
Para quem sabe amanhã, ao cair o primeiro orvalho
Acordar dragão
PARANÓIA
Meus pensamentos sem métrica
E sem rima
São a real sintonia
Daquilo que não entendo
Busco verdades e encontro ilusões
Puras fantasias que não me dizem nada
Quantas bobagens permeiam minha mente
Trazendo sentimentos descontentes
Fazendo os segundos pararem
Oh! Tempo inexorável por que não ages?
Que horas são?
Me interessa saber o exato minuto
De quando devia ser
E depois o aonde já é tarde demais
Já passou, tudo já passou
Agora é apenas hora do café
Lembra? Ainda tomo puro
E você como toma o seu?
Ainda com leite?
Pare com isso menina
Sua cintura continua fina
Pensamentos, sentimentos buscam vazão
Não encontram e me perturbam
Com sonhos e visões
Quantas reflexões,
Melhor seria
Uma lobotomia
Do que essa imensa melancolia
De ficar horas e horas aguardando
Encontrar você
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